Ensaio#07Pessoas e talento

Nem sempre fica o melhor. Fica quem custa menos perder.

A rentabilidade também é uma decisão de pessoas

Porque é que numa transformação BPO as decisões sobre a equipa combinam desempenho, antiguidade, custo de saída, conhecimento e viabilidade futura.

Por Jesús Pinar8 min de leitura

Em operações intensivas em emprego existe uma ideia que quase nunca é formulada de forma explícita: a equipa não é apenas capacidade produtiva. É também custo, conhecimento, antiguidade, risco laboral e possibilidade de adaptação.

Vi processos em que a lógica real seguia esta ordem: custo de saída, antiguidade e desempenho. Não porque o desempenho não importasse, mas porque a direção de Operações tinha de proteger ao mesmo tempo o serviço, a margem e a sobrevivência do negócio.

A empresa pode reconhecer que uma pessoa é boa e, ainda assim, decidir que não consegue suportar o seu custo. Não é uma anomalia. É uma consequência do modelo.

Quando o volume cai, não sobra exatamente o mesmo trabalho

Se o volume cair 20%, a estrutura não pode reduzir-se automaticamente 20%. Continuam a ser necessárias chefias, planeamento, qualidade, conhecimento. A operação fica mais pequena, mas não necessariamente mais simples.

A equipa do futuro constrói-se com as obrigações do passado.

O desempenho não decide sozinho

O desempenho convive com outras variáveis: custo de indemnização, antiguidade, polivalência, convenção aplicável, conhecimento específico. Uma pessoa pode ter um desempenho excelente e estar muito especializada numa atividade que desaparece. A direção de Operações não seleciona apenas os melhores. Tenta construir a operação viável que fica depois da mudança.

O custo que não aparece na conta de resultados do serviço

Enquanto o volume se mantém, o serviço parece rentável. Mas cada ano aumenta a antiguidade e cresce o custo de saída.

Parte da margem do passado não era margem. Era um custo adiado.

Reconverter custa antes de poupar

Num negócio de margens estreitas, formar para o futuro pode piorar o resultado do presente. Se cliente e fornecedor quiserem uma transição responsável, a reconversão deve fazer parte do modelo contratual.

A tecnologia também seleciona perfis

Toda a decisão tecnológica contém, ainda que não se diga, uma decisão sobre pessoas. Escolher o que automatizar é escolher que competências deixam de ser necessárias e quais passarão a ser críticas.

Toda a decisão tecnológica contém, ainda que não se diga, uma decisão sobre pessoas.

O enquadramento laboral também condiciona o negócio

A convenção aplicável e a existência ou não de mecanismos de transmissão de trabalhadores podem alterar radicalmente o risco de uma operação perante a perda de um contrato — ao ponto de decidir se a equipa passa para o fornecedor seguinte ou se o custo de saída fica integralmente na empresa cessante. É uma variável de negócio, não apenas administrativa.

A responsabilidade das Operações

A direção de Operações deve proteger as pessoas, mas também garantir que a empresa sobrevive. Não existe uma decisão limpa. Consiste em decidir que combinação de capacidades, custos e obrigações permite manter viável a operação futura.

Perguntas em aberto

Quanto deveria pesar o custo de saída face ao desempenho real na hora de decidir quem fica? Quem deveria partilhar o custo da reconversão, o cliente ou o fornecedor, quando a transformação nasce da estratégia do primeiro? É legítimo medir a empregabilidade futura de alguém e não apenas o seu desempenho atual?

Fecho

A rentabilidade não é apenas o que resta depois de subtrair custos às receitas. É também a capacidade de uma empresa para assumir as consequências humanas e económicas das decisões que tomou durante anos. No BPO, quando a operação muda, as pessoas não são uma variável posterior à estratégia. São uma parte central dela.

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