Ensaio#01Estratégia BPO

A automatização não elimina o risco. Decide quem acaba por pagá-lo.

O jogo da última cadeira

A assimetria silenciosa entre cliente e fornecedor quando a automatização começa a reduzir o volume do contrato.

Por Jesús Pinar8 min de leitura
Ilustração editorial de cadeiras executivas vazias à volta de uma mesa redonda, em tons de azul-marinho sobre fundo claro.

Trabalho há mais de 27 anos na indústria do Business Process Outsourcing (BPO). Vi-a nascer, crescer, internacionalizar-se e amadurecer. Vi como se tornou motor de emprego, plataforma profissional e parceiro estratégico de indústrias críticas.

Durante estas três décadas, o BPO foi um pilar silencioso da eficiência empresarial e da experiência de cliente. Bancos, seguradoras, operadores de telecomunicações, empresas de energia, retalhistas, ecommerce e administrações públicas confiaram na sua capacidade operacional, resiliência e especialização para garantir serviços essenciais.

Hoje, no entanto, a indústria do outsourcing enfrenta o ponto de inflexão mais profundo desde a sua modernização nos anos noventa. E, surpreendentemente, quase não se fala disso.

Três forças estão a atuar em simultâneo e a tensionar o modelo tradicional.

1. A concentração que separa quem poderá competir de quem apenas poderá resistir

Os grandes operadores aceleraram o investimento em tecnologia e inteligência artificial, consolidando uma vantagem competitiva baseada em escala, capital e capacidade de industrialização. A escala já não é apenas uma vantagem. Começa a ser uma condição mínima para competir em determinados contratos. Isto deixa uma parte do mercado a tentar resistir enquanto o resto avança.

2. Um enquadramento laboral que nasceu para proteger emprego, não para gerir disrupções súbitas

A transmissão de trabalhadores entre fornecedores foi um instrumento valioso para proteger emprego e estabilidade na indústria BPO. Mas foi desenhada para ciclos relativamente estáveis, não para quedas abruptas de atividade geradas por automatização na origem.

Recordo com clareza o momento de avaliar se nos deveríamos apresentar a um grande concurso de apoio ao cliente para uma operação ferroviária: cerca de 400 pessoas, muita antiguidade, enquadradas na convenção de contact center, distribuídas por várias cidades. No papel, o volume era atrativo. Mas, ao analisá-lo com calma, a pergunta não era apenas quanto faturaria esse contrato. Era o que aconteceria a essas 400 pessoas — a sua antiguidade, o seu custo de saída, a sua rotatividade num serviço multilíngue exigente — no dia em que esse cliente decidisse automatizar uma parte relevante do serviço. Ninguém podia garantir que esse dia não chegaria.

Não nos apresentarmos não era uma decisão sobre aquele contrato. Era uma decisão sobre que risco estávamos dispostos a herdar.

Hoje, quando um cliente reestrutura ou automatiza parte dos seus processos, o ajuste pode recair integralmente no fornecedor, que mantém pessoal sem margem real de adaptação. O resultado é um risco laboral e financeiro concentrado numa só parte da equação.

3. Quando falar de «IA» é ficar a meio da análise

Comete-se um erro ao falar da inteligência artificial como se fosse um fenómeno único. Na realidade, convivem duas dinâmicas muito distintas. A IA interna do BPO melhora eficiência, produtividade, qualidade e conhecimento. A IA aplicada pelo cliente antes do ponto de contacto resolve, filtra ou evita pedidos antes de chegarem ao BPO, e é essa que pode reduzir o volume operacional de forma repentina — a disrupção real para o modelo laboral e económico do fornecedor.

O jogo da última cadeira

Quando a atividade cai por automatização na origem, alguns fornecedores preferem devolver o contrato para evitar prejuízos. Mas há sempre um que fica no fim. E esse operador pode acabar por assumir: pessoal transmitido, custos laborais completos, perda de margem, impacto reputacional e financeiro.

Não necessariamente por ter gerido mal, mas por ter sido o último na sala quando a música parou.

Este modelo penaliza o fornecedor resiliente e pode gerar um risco sistémico para toda a indústria de Customer Operations. A ameaça não é a IA para o BPO. A ameaça é a assimetria.

A ameaça não é a IA para o BPO. A ameaça é a assimetria.

A IA deve ser implementada, e depressa. Mas não pode sê-lo num modelo em que o cliente captura a eficiência, o BPO absorve o impacto laboral e o mercado se cala por incómodo.

Esse silêncio é talvez o dado mais preocupante. Há uns meses estive num dos eventos mais relevantes da indústria. Falou-se de inovação, talento, estratégia e futuro. Mas este tema — um dos mais importantes para o futuro da indústria da relação com clientes e do emprego que gera — quase não apareceu. Não porque não exista. Mas porque incomoda.

Olhar para o lado não é estratégia

O BPO foi durante trinta anos o estabilizador operacional de muitas indústrias. Hoje precisa de se estabilizar a si próprio. Não se trata de travar a tecnologia. Trata-se de a acompanhar com um enquadramento mais justo e moderno: elasticidade contratual associada à automatização, partilha do benefício e do custo laboral, mecanismos de transição para o emprego, responsabilidade partilhada entre cliente e fornecedor, uma visão de indústria e não apenas individual.

A alternativa não é mais eficiência. É maior fragilidade estrutural. A pergunta não é se a mudança vai acontecer. A pergunta é quem a vai liderar.

A Península Ibérica tem a oportunidade de se tornar referência global num modelo de outsourcing adaptado à nova era: competitivo, responsável e sustentável. Mas essa transição não acontecerá sozinha, não acontecerá em silêncio, e não acontecerá se a indústria esperar sentada para ver quem é o último quando a música parar outra vez.

A responsabilidade — e a oportunidade — é agora.

Perguntas em aberto

Quem deveria assumir o custo de uma transição que beneficia sobretudo o cliente? Pode um contrato de serviço antecipar hoje uma queda de volume que ainda não tem data? Como se avalia, no momento de decidir se vale a pena concorrer, um risco que só se materializará anos depois? E se ninguém liderar esta mudança de enquadramento, quem acabará por pagar a fatura da próxima vez que a música parar?

(O caso do concurso ferroviário está anonimizado de propósito: não tem nome de cliente nem de fornecedor.)

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